segunda-feira, 31 de maio de 2021

Leite de vaca faz mal à saúde ou não?

Em geral, o leite é considerado um alimento saudável, especialmente por seu conteúdo de cálcio. Existem países, como os Estados Unidos que recomendam até 5 x ao que se é de fato consumido para aporte de cálcio, auxilio na mineralização óssea e, com isso, reduzir riscos de fraturas na terceira idade. 
O leite possui uma composição complexa que inclui vários nutrientes essenciais além de hormônios como IGF-1, progestágenos, estrogênios e outros. Não é apenas cálcio! 
É importante salientar que várias técnicas de processamento do produto resultam em outras alterações de composição: a pasteurização é essencial para eliminação de patógenos, a fermentação permite desnaturação de proteínas e redução do conteúdo de lactose, além da alteração da composição bacteriana, o fracionamento permite subprodutos como leites de baixo conteúdo de gordura e whey e a fortificação permite adesão de outros componentes como vitamina A e vitamina D.

Temos que considerar que existem riscos à saúde em aumentar o consumo de determinado alimento unicamente por um de seus componentes.
Uma equipe da Faculdade de Medicina de Harvard publicou, esse ano, uma revisão sistemática no periódico New England Journal of Medicine sobre o leite e seus potenciais benefícios e malefícios.

Efeitos sobre o crescimento:
Existe um argumento em favor dos defensores do leite que seria influenciar o crescimento. De fato, as pesquisas mostram que o consumo de leite na infância resulta em maior altura. Segundo o artigo esse resultado seria devido à presença de hormônios anabolizantes naturais do leite, além da composição de aminoácidos que favorece vias hormonais e genéticas de crescimento nos humanos. 

Entretanto, uma maior altura, os resulta tanto riscos quanto benefícios. Enquanto maior estatura está associada a menor risco de doenças cardiovasculares, ela também se associa a maior risco de cânceres e fraturas de quadril.





Saúde óssea:
 o leite falha em cumprir algumas das expectativas e previsões neste quesito, sobretudo à fraturas ósseas. Muitas pesquisas mostram que, apesar de a ingesta de cálcio realmente contribuir para a mineralização óssea, esse efeito desaparece rapidamente quando a suplementação do nutriente é suspensa. Ou seja, a estratégia ingerir grandes quantidades de leite em determinada fase da vida a fim de fazer uma “reserva óssea” não funciona, na realidade.

Vários estudos sugerem um limiar para os benefícios na ingestão de cálcio, de forma que os efeitos benéficos surgem até determinada quantidade ingerida por dia e, a partir daí, não há mais efeito perceptível, o corpo elimina os excessos. Outros estudos sugerem, inclusive, que a reposição excessiva pode aumentar os riscos de fratura. Além disso, paradoxalmente ao esperado, os países em que o consumo de leite é mais alto são também os que têm maior incidência de fratura de quadril.

Síndrome metabólica:. Por muito tempo, o leite tem sido promovido como um alimento protetor contra a obesidade. De todos os seus derivados, o iogurte é o único que foi associado a menor peso nas pesquisas. Provavelmente, esse efeito resulta da natureza probiótica desse alimento, alterando a microbiota intestinal de forma favorável à perda de peso.

O leite em si e seus demais derivados, entretanto, não surtiram o mesmo efeito. Nas pesquisas, foi observado que o leite não reduz o peso corporal, mesmo quando comparado a outros alimentos como bebidas adoçadas com açúcar, sucos de frutas e até água. Da mesma forma, o leite reduzido em gordura (como o desnatado) não apresentou vantagem em relação ao leite integral, contrariando várias opiniões tanto populares quanto profissionais.

Controle da hipertensão arterial sistêmica:
 provavelmente, vindo da inclusão do alimento e seus derivados na dieta DASH, conhecida como uma intervenção dietética com boa eficácia para redução da pressão arterial. Os resultados das pesquisas nesse aspecto costumam ser conflitantes. Os resultados podem variar, de acordo com a coleta de dados e sistemática -  alguns estudos que investigaram a relação entre o leite e o risco de doença coronariana evidenciaram menor risco quando comparado a quantidades equivalentes de carne vermelha, porém mostraram maior risco quando comparado com nozes ou peixes. Os mesmos resultados foram encontrados para o risco de acidente vascular encefálico.

Logo, as pesquisas não permitem afirmar que leite seja ou não “saudável” do ponto de vista cardiovascular, com os resultados dependendo mais de quais alimentos poderiam estar substituindo-o.

Leite e diabetes: Já quanto ao diabetes mellitus (DM), existe a crença de que o leite possa desencadear o DM tipo 1 (por reação cruzada entre as proteínas do leite e antígenos das células beta-pancreáticas). Porém, pesquisas envolvendo crianças não mostraram diferenças na incidência da doença entre aquelas que ingeriram leite e as que consumiram versões hidrolizadas do produto. Ao contrário, o consumo de leite e derivados tem sido associado a menor risco de DM tipo 2, porém essa relação também não foi comprovada de forma satisfatória dos estudos.

Mais uma vez, os resultados dependiam dos alimentos com os quais o leite era comparado: o risco de diabetes era menor quando os laticínios eram comparados a bebidas adoçadas com açúcar ou sucos de frutas, mas era maior quando comparados a café, por exemplo.

Incidência de câncer:
é outro assunto muito discutido e os resultados não são tão satisfatórios. Alto consumo desses alimentos tem sido consistentemente associados a maior incidência de cânceres de próstata e mama, além de outros com relação mais incerta (como o câncer de endométrio, por exemplo). A causa proposta para isso seria o alto conteúdo hormonal do leite (em especial, de IGF-1). Ao contrário, a relação parecer ser inversa para o câncer colorretal, supondo-se que o fator protetor nesse caso seria o alto conteúdo de cálcio nos laticínios.

O maior problema nesse aspecto é que a maior parte dos estudos foram realizados com participantes de meia idade ou mais velhos, enquanto a maioria dos fatores de risco para câncer atuam na infância e na vida adulta.

Leite e a  relação com alergias: Alguns relatos esparsos sugerem que os laticínios podem desencadear reações atópicas e favorecer crises de asma e alergias alimentares, mesmo na vida adulta. Não há um estudo que indique a comprovação a não ser em casos daqueles que são intolerantes a lactose.

Mortalidade em geral: Numa metanálise de 29 estudos de coorte, o consumo de leite (tanto integral quanto em suas formas de baixa-gordura) não mostrou associação com aumento da mortalidade em geral. Mais uma vez, o resultado variou conforme as comparações: consumo de leite e derivados apresentou relação com menor mortalidade quando comparado a carne vermelha processada e ovos; mortalidade similar quando comparado a carne vermelha não processada, aves e peixes; e maior mortalidade quando comparado a fontes de proteína vegetal.

O leite orgânico: Existem os adeptos ao consumo de leite orgânico, ao invés do convencional, por teoricamente apresentar menor contaminação hormonal e por agrotóxicos. De fato, o leito orgânico tem maiores concentrações de ácidos graxos insaturados e beta-caroteno, provavelmente resultante da alta ingesta de grama pelas vacas leiteiras desse tipo de produção. 
Porém, não existem estudos que tenham, de fato, comparado os efeitos de uma ou outra forma de produção para a saúde humana.

Outro fato importante de se lembrar é que os alimentos interferem em nossa saúde de forma direta e indireta também. A produção de leite, especialmente no processo industrial, resulta em produção de gases estufa, poluição/consumo de água e promoção da resistência bacteriana a diversos antibióticos em taxas de 5 a 10 vezes maior (por unidade de proteína) que a produção de produtos vegetais (soja, outros legumes e a maioria dos grãos).

O que podemos concluir então?


O leite e seus derivados são alimentos ricos em macro e micronutrientes, podendo certamente contribuir para a nutrição humana. Porém, todos os nutrientes em questão podem ser obtidos de outras fontes alimentares, o que ressalta que os laticínios não são verdadeiramente essenciais.

Quando olhamos para as evidências apresentadas no artigo, percebemos que o leite não tem benefícios evidentes em algum aspecto específico da saúde, podendo até mesmo aumentar risco de algumas doenças como os cânceres quando consumido em excesso. Ao mesmo tempo, também vale relembrar que pesquisas em nutrição frequentemente analisam alimentos em comparação entre si, o que praticamente inviabilizada caracterizar um ou outro como “vilão ou herói”.

Existem de fato benefícios na ingesta de leite, porém vão depender da qualidade geral de cada paciente em específico e do produto consumido. Em populações com bom aporte nutricional e dieta variada, o leite é pouco necessário, sendo possível compensar suas principais vantagens nutricionais (cálcio e vitamina D) com outros alimentos (no caso do cálcio) e suplementos (no caso da vitamina D). Em populações com menor acesso à dieta variada, porém, o leite pode ser um ótimo aliado para complementação das necessidades nutricionais.

Fonte: https://pebmed.com.br/leite-vilao-ou-heroi-para-a-saude/

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