segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Artigo pede reestudo sobre a nascente do Rio São Francisco !

RIO SÃO FRANCISCO, NASCENTE POLÊMICA, NECESSIDADE DE UM REESTUDO, IMPORTÂNCIA

Rio São Francisco , o denominado rio da integração nacional, ocupando 8% de nosso território.Sua  bacia totalmente brasileira. Rio que banha cinco estados do Brasil: Minas Gerais, seu berço, Bahia,  Pernambuco, Alagoas e Sergipe, sua foz com o oceano Atlântico. Um espetáculo traçado pela mãe natureza, grande artéria pluvial de nosso país, com extensão de 2.830 km, sendo 2.000 km navegável e drenando uma área de 641.000 km2 .Responsável por  25% da área represada por hidrelétricas do país, compreendendo as usinas de Três Marias, Paulo Afonso, e Sobradinho.

Mas, onde nasce o rio São Francisco? Será realmente no Parque Nacional da Serra da Canastra, município de São Roque de Minas? Qual é o critério usado para determinar a nascente de um rio: pelo seu ponto mais alto ou pela maior extensão? O IBAMA,  por vez, considera como nascente o ponto mais alto e não o mais longo. Ora, o  ponto mais alto não é o parâmetro certo. Se assim o fosse, por exemplo, o rio Aiuruoca deveria chamar-se rio Grande e o rio Grande deveria chamar-se Aiuruoca porque,esse rio, embora considerado um tributário do rio Grande, nasce a 2.540 metros de altitude, no município de Itamonte,  na Serra da Mantiqueira, enquanto o rio Grande nasce na Serra da Mantiqueira em Bocaina de Minas, numa altitude de 1.200 metros, portanto, de menor altitude, logo, o rio tributário seria o principal e o principal, o tributário. Dessa forma não sendo verdade, porque o que determina como rio principal é a sua nascente mais longa.
Partindo dessa premissa, isto é, o rio mais longo, não é forçoso observarmos que a nascente do rio São Francisco é até os dias atuais polêmica na concepção de que sua nascente é  no Parque Nacional da Serra da Canastra,  o que, aliás, já tendo  gerado essa polêmica e continuará sempre alvo de  uma gama de tese de estudiosos e historiadores com relação à matéria mas, talvez por conveniência, comodismo ou interesses outros, tais quais,  socioeconômico, políticos e históricos permanecendo quietado o assunto.
Vejamos:
Tem-se, como afluentes do denominado rio São Francisco, o rio Pará e o rio Paraopeba, por sinal, dois dos seus maiores afluentes,o primeiro desaguando no rio São Francisco entre os municípios de Martinho Campos e Pompéu, portanto, antes mesmo das águas represadas da barragem de Três Marias construída no leito do então rio São Francisco e, o segundo, tendo sua foz num dos braços da mesma barragem, nas proximidades do município de Felixlândia mas,  antes das águas serem represadas pela barragem, interceptava, obviamente,  o São Francisco, ou seja, nele era desaguado. O rio Pará, que nasce nas imediações de Resende Costa/Desterro de Entre Rios, tem um percurso até o encontro do São Francisco, de mais ou menos 400 km, drenando uma área de 12.227 km2 por 38 municípios. Já o rio Paraopeba, que nasce entre o município de Cristiano Otoni e Conselheiro Lafaiete, tendo uma extensão até Felixlândia de 537 km2, drenando uma área de 13.643 km2 por 35 municípios. Pois bem, o rio São Francisco, da sua nascente até as confluências dos rios Pará ou do Paraopeba, não tem maior extensão. Não obstante, não se  encontra nenhuma fonte plausível de seu comprimento, da nascente até o encontro dos dois rios citados( Paraopeba e Pará), mas, apenas da nascente ao marco “0” da represa de Três Marias onde possui 450 km , parecendo-nos ser  bem menor, aliás, visivelmente observado até nos nossos mapas cartográficos,trajeto esse também comprovado, pelas áreas e municípios que aqueles rios drenam e atravessam. Por exemplo, da sua nascente  no Parque Nacional da Serra da Canastra  até a interseção do rio Pará,  lá entre os municípios de Pompéu e Martinho Campos, o rio São Francisco, resultado da junção dos rios Santo Antônio e Samburá corre bem próximo dos  municípios de São Roque de Minas, Vargem Bonita, Deresópolis, Iguatama, Garça de Minas, Lagoa da Prata, Engenho Ribeiro, Abaeté, Martinho Campos e Pompéu. O rio Pará, nascendo na Serra das Vertentes, proximidade do povoado de  Hildebrando, no município de Resende Costa, correndo bem próximo do Desterro de Entre Rios,  Piracema, Carmo do Cajuru, Divinópolis, São Gonçalo do Pará, Conceição do Pará, Onça do Pitangui, Velho da Taipa, Pitangui, Pompéu. O Rio Paraopeba que nasce entre os municípios de Cristiano Otoni e Conselheiro Lafaiete, correndo também, próximo dos municípios de Cristiano Otoni, Queluzito, São Brás do Suaçui, Jeceaba, Belo Vale, Moema, Brumadinho, Mario Campos, Juatuba, Lagoinha, Buriti Grande e braço da represa de Três Marias próximo ao município de Felixlândia.
Conclui-se que, numa perfunctória visão pelos mapas cartográficos das três bacias, não é o rio São Francisco, de sua nascente até o encontro dos rios Pará ou Paraopeba ,mais extenso do que os dois.
Outra importante e irrefutável evidência, aliás, histórica, desde priscas eras coloniais, pedindo vênia para transcrever trechos na íntegra de uma matéria que  chama muita atenção, escrita com  propriedade por ORLANDO FERREIRA DE FREITAS, pesquisador e historiador,  publicada na Revista aí”- Ano II- edição 03- Centro Oeste/MG, que traz o então artigo intitulado:
“Onde nasce o São Francisco”?.
Veremos assim registros insofismáveis de que  o rio atualmente denominado São Francisco não é o rio que  nasce  na Serra da Canastra mas, o rio Pará que nasce nas vertentes de Lagoa Dourada/Resende Costa/Desterro de Minas. Acrescentando  mais a dúvida quanto à sua nascente, acreditava- se até num terceiro e quarto  rio, qual sejam, o  rio Paraopeba e o rio das Velhas como sendo os que deveriam ser denominados rio São Francisco.
Diz o artigo:
Descoberto por Américo Vespúcio e Gaspar Lemos no dia 4 de outubro de 1.501, o rio São Francisco recebeu esse nome em homenagem ao santo celebrado naquela data pelo calendário católico.
No ano de 1553, D. João III ordenou a exploração das margens e do interior do rio São Francisco. A expedição organizada pelo governador Tomé de Sousa ficou sob o comando de Francisco Bruza de Spinosa; Encarregado dos ofícios religiosos, a legião contou com a presença do padre João de Azpilcueta Navarro. Partiu deste sacerdote, as únicas informações daquela proeza, contadas em uma carta datada em 24 de junho de 1555. Em um trecho da carta, diz o padre Azpilcueta: “ Dahi partimos e fomos até um rio mui caudal por nome Pará, que segundo os índios nos informaram é o rio de São Francisco e é mui largo”.
Como se vê, a designação “Pará”( grande massa de água, na língua tupi) se perde no tempo. Da mesma forma remontam a vários séculos as informações sobre as nascentes do rio São Francisco partindo do atual rio Pará e, em outras versões, acrescentando o rio Paraopeba e rio das Velhas. Vários documentos e mapas da era colonial, bem como relato de estudiosos e caminhantes assim demonstram.
                                                  O Mestre de Campo Inácio Correia de Pamplona, um dos delatores da Conjuração Mineira, chefiou várias expedições exploradoras na região outrora denominada Campo Grande, grande extensão de terras situadas ao poente do atual rio denominado São Francisco, desde Iguatama até a Serra da Saudade. Em uma dessas aventuras(1767), solicitou ao cartógrafo da comitiva Manuel Ribeiro Guimarães, a confecção de um mapa do trajeto da expedição no Campo Grande. Naquele mapa, denominado Mapa da Conquista, o atual rio Pará tem a denominação de “Rio São Francisco”, e, localizadas ao lado das margens esquerdas(!), as Capelas de Nossa Senhora do Desterro( hoje Marilândia), de Nossa Senhora das Oliveiras( hoje cidade de Oliveira), Capela do Espírito Santo/São Francisco de Paula( hoje Divinópolis), e a Vila Nova do Tamanduá( Itapecerica). Consta ainda como tributário do rio São Francisco, o rio Itapecerica! Onde se localiza a Serra da Canastra, encontra-se desenhado(sic) a nascente do ribeirão de Santo Antônio( que é alimentado pelo ribeirão Samburá): alia-se àquelas águas o ribeirão dos Cabrestos.Uma observação escrita no mapa pelo cartógrafo, salientando que estas águas da Serra da Canastra se verteriam para o rio São Francisco(após a barra do rio Pará),Nota-se que a fonte primária daquele curso, divulgada atualmente como nascente do rio São Francisco, denominava-se no Mapa da Conquista de ribeirão de Santo Antônio.
                                                                       No ano de 1777, o cartógrafo e sargento-mor José Joaquim da Rocha desenhou a Capitania de Minas Gerais em cinco placas:uma dessas placas contempla todo o território mineiro.As demais placas, em número de quatro, localizam  as comarcas da capitania daquela época. Na placa onde se estampa a Comarca de Sabará, o cartógrafo desenhou o rio Lambari desaguando no atual rio São Francisco( portanto, braço esquerdo)!Isto é sintomático! Sabe-se que os cartógrafos da era colonial serviam-se mais de informações do que de andanças ou de aparelhos para demarcações. Desta forma compreende-se que algum informante( sabedor que o atual rio Pará se chamava rio São Francisco- o que era corrente) deu ao cartógrafo a informação de que o rio Lambari era afluente do rio São Francisco.
O cartógrafo entendendo que o rio São Francisco era o braço esquerdo, lançou no mapa a desmedida incorreção!
Veremos a seguir outra dúvida posta pelo naturalista francês Auguste de Saint- Hilaire, que em suas andanças por vastas  regiões do Brasil Colônia publicou seus estudos.
Ainda, trecho do mesmo artigo:
Na obra “ Viagens pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais”, o autor dedica um capítulo à sua viagem pela província de Minas Gerais, com destaque para sua visita à Serra da Canastra. E confessa que naqueles dias( 1826) ainda se discutia sobre o berço do rio São Francisco: “Foi aliás, nos nossos dias, unicamente que se começou a ter idéias mais precisas sobre as nascentes do São Francisco. Antigamente, diz o historiador do Brasil, julgava-se que o rio São Francisco saia de um lago formoso em cujas margens se situava a cidade de Manoah(......) em 1810 Southey ignorava ainda em que lugares começava esse rio”.
Frei Vicente do Salvador conta em sua obra”História do Brasil”( 1570) que uma expedição comandada por Gabriel Soares de Sousa pretendia ganhar o rio São Francisco e por ele subir “até a Lagoa Dourada”, donde dizem que tem o seu nascimento com fama de muito rica em ouro, prata e pedras preciosas”
A referência de Frei Vicente de Salvador sobre a nascente do rio São Francisco é inquietante. Lagoa Dourada, hoje município localizado no Campo das Vertentes, tem este nome desde os primeiros instantes da exploração da Capitania de Minas e seu território foi perscrutado por várias bandeiras. O atual rio Pará nasce próximo a Lagoa Dourada, mais precisamente no lugar denominado Hildebrando, no município de Resende Costa.
De fato não  podemos , diante de todas essas nítidas comprovações acima alinhadas, permanecer à mercê do erro ou do “deixa ficar” ou da melhor conveniência política. A dúvida ainda paira e continuará ao longo dos tempos, sempre sendo suscitada por alguém. E, o que não é a verdade verdadeira tem que ser sempre investigada. Não há duas verdades, como não pode haver duas nascentes! Daí a necessidade de um reestudo mais acurado para os dias atuais em que somos fartos em recursos tecnológicos,  quer seja de  um mero aparelho ou da utilização dos nossos satélites.
A vantagem para a região berço da nascente do rio São Francisco é de grande monta socioeconômica, política e turística. Da mesma forma que, hoje, o Parque da Serra da Canastra recebe os louros e todos os auspícios de toda a natureza pelos governos do estado e da união, por ser considerada a nascente do rio São Francisco; não menos certo que iguais atributos recairão para a Região das Vertentes, e, mais, intensificando sobremaneira o seu turismo.
Por fim, traria de volta para a sua verdadeira  casa a região do Campo das Vertentes, que já é responsável, segundo a  obra do  Grande Arquiteto do Universo, pelas outras duas importantes bacias hidrográficas : do Rio Paraná, através de seus afluentes que nascem na Mantiqueira( rio Grande, rio das Mortes, rio Elvas, rio Aiuruoca) e a bacia do rio Paraíba do Sul( o rio Paraibuna e rio Pomba).

Fontes:
Instituto Mineiro de Gestão de Águas.
Coordenadoria das Promotorias Ambientais da Bacia do São Francisco
Consórcio Intermunicipal da bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba
Mapas de Minas Gerais- Ministério dos Transportes
Bacia do Rio Pará- FEAM
Portal meio ambiente- Fundação Estadual do Meio Ambiente-FEAM
Revista aí-ano II.Ed.03-Centro-Oeste/MG

Musse João Hallak, advogado, aposentado, membro da Academia de Letras de S.João del Rei e do núcleo dos cronistas da Academia Divinopolitana de Letras.

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